Quero-quero

| sexta-feira, 18 de maio de 2012
Quero-quero desconfiado vai tecendo um bem querer...
Quer o amparo e quer o afago desfiando um bem-me-quer...
Dom Isidro


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Aforismos da Alma - 01

| domingo, 1 de abril de 2012

Vi tardes caírem calmas nas vistas das almas que andam sós. Vi dias trançando vias no viço vivo dos girassóis. Vi noites andarem mansas mirando as danças do luar, vi vaga-lumes a procurar luzes perdidas em um olhar. Vi mundos buscando o fundo do poço raso do bem querer, vi tempos trincando ventos, contando tentos para viver.
Andei andando, me procurando na sanga clara dum arrebol, promessa rara, pressa desnecessária de um caracol. Contei com a noite, senti o açoite do ramo verde que a alma lavra na dor do corte, fere de morte o fio da palavra. Lágrimas rotas secas nas gotas de uma lembrança, jaz a esperança do reencontro do verso pronto para entregar a quem não vêm e ainda insiste em esperar, na ânsia incontida de nascer partindo, de andar sentindo sem nunca chegar...

Dom Isidro

Tenteei uns versos... De um tal Leonardo José...

| quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Tenteei uns versos de despedia pro meu velho, já faz tempo... Mas hoje, ao lembrar de um sonho que tive com ele, resolvi postar estes versos toscos, que apontam uma saudade, muitas lembranças e uma vontade...

De um tal Leonardo José
(Em memória de meu pai)
A dor espinha no peito
E o índio não vê a ferida
Só sabe que tem que dizer
O adeus da despedida
Quando a morte caborteira,
Toca o hino da partida.

Hoje me peala esta dor
Por um taura que se vai
Um bom e velho gaiteiro
Que hoje não toca mais
Rendo esta charla campeira
Ao meu bom e querido pai.

Os amigos vão embora
Tristes, estendem a mão
Depois de deixar um taura
A sete palmos do chão
E a gente então se vê só
Num rancho de solidão.

Enquanto cevo este mate
Acho que assim a vida é
Vou hoje matear solito
E renovar minha fé
Rezando pra aquele santo
Que como meu pai foi José.

Mas não foi só este nome
Que meu pai levou do santo
Também foi trabalhador
Nunca medrou de quebranto
Também amava a Deus Pai
E o vaqueano Espírito Santo.

Sei que parte com ele
Aquela voz machucada
Que tantas vezes cantou
Nos bailes de madrugada
Agora canta pra Deus
Lá na eterna morada.

A lágrima molha o papel
E o pito vai se apagando
E aquela dor caborteira
Para os versos vai passando
E, como meu pai, limpo o rosto
Pra não me verem chorando.

Se é pra dizer adeus
Que seja numa canção
Ou numa prece campeira
Um prosa de oração
Que dou como despedida
Ao meu pai do coração.

Chimarreando com Deus
Fiz esta pajada de fé
Pois sou filho de um cristão
E soou um índio que crê
Entrego ao Patrão Celeste
Um tal Leonardo José.

Dom Isidro

Entardecer... As Palavras do Natal...

| sábado, 24 de dezembro de 2011
Minha avó sempre dizia as Palavras do Natal, um poema antigo que, embora analfabeta, havia decorado na infância e usava todo o ano para comemorar o Natal de Jesus e o seu próprio Natal, por fazer aniversário no dia 24 e dezembro, este é o nosso primeiro ano sem ela, o primeiro ano sem aquele olhar na cabeceira da mesa, o primeiro ano sem as Palavras do Natal... A alguns anos escrevi as minhas próprias Palavras do Natal, com este poema "Entardecer" que dedico a todos os leitores e amigos junto ao desejo de um Santo, Abençoado e Feliz Natal!
Vítor Isidro

Entardecer

Num entardecer de verão
Enquanto espreitava o calor
Lembrei d’outra tarde serena
Descrita no chasque do amor
Quando na estância em Belém
Veio ao mundo o Salvador

Ao antes então retornei
Palmeando meu chimarrão
Pra um ranchinho simples
Distante noutro rincão
Quando a Prenda celeste
Deu o sim na Anunciação

Pensei no Anjo gaudério
O missioneiro São Gabriel
Ao surpreender a Virgem
Lidando em seu carretel
A alegria de ser mensageiro
Dum chasque vindo do céu

A saudação foi gloriosa
Porque glorioso era o dia
Salve! Prenda celeste!
Ave! Prenda Maria!
Serás a mãe do Senhor
Darás a luz o Messias

Maria não se medrou
Pois tinha que ser assim
Era uma serva de Deus
Que lhe presenteou este fim
Foi pura, casta e piedosa
Deu por vontade o seu sim

Servir ao Divino Patrão
Isso ela sempre o faria
Foi filha e mãe do Senhor
O Deus e senhor de Maria
Cuidou de Izabel e de João
Na estância de Zacarias

Sofreu o xirú prometido
O taura chamado José
Pensou em fugir pra longe
Dos bretes de Nazaré
Mas ouviu de São Gabriel
A charla sagrada da fé

Ao encontro de Maria
O carpinteiro se vai
Amor de muita grandeza
Dos que hoje não se vê mais
O guasca se fez protetor
Do Filho do Eterno Pai

Partiram confiando na sorte
Rumo a estância de Belém
Não receberam abrigo
Nem auxilio de ninguém
Só o gado e o pastoreio
Foi testemunha também

Era vontade de Deus
A idéia do Soberano
É este o grande milagre
Que rezamos todo o ano
O Rei dos reis nasceu pobre
E foi envolto com panos

Nasceu num brete gaudério
E não entre patrões e senhores
Só a criação e os pais
Deram os primeiros amores
E um anjo cheio de luz
Foi convocar os pastores

Depois sim, vieram reis
Seguindo um facho de luz
Que no coração do pago
Até hoje ainda reluz
Quando se vê no Presépio
Maria e José com Jesus

Queria ser um pastor
Naquela noite sem igual
Mas nasci em outro tempo
Peão do Rio Grande bagual
Só posso pedir ao Piázinho
Um Feliz e Santo Natal

Por Aí...

| sexta-feira, 4 de novembro de 2011
Por aí...

Só amar...
Sem entender, sem medir,
Sem limites, sem razão...

Sei que te vi,
Não lembro quando,
Sei que sorri,
Não lembro quanto,
Sei que senti,
Não sei que tanto,
Sei que cedi
Ao teu encanto.

Não houve olhar,
Não houve luz,
Não houve afago,
Houve um sorriso
E hoje preciso
Ter-te em meus braços.

Não sei dos dias,
Não sei do ontem,
Nem do depois,
Sei do meu sonho,
Sei do meu verso,
Sei de nós dois.

Sei que te quero,
Sei que hoje espero
O que ainda não foi.
Não sei das tardes
Para escrevê-las,
Não entendo a noite
Nem a magia que há nas estrelas
Sei apenas do vôo e do pouso
Suave das borboletas.

Sei do perfume,
Sei do calor,
Sei do teu beijo
E do seu calor,
Só sei de nós dois
E de todo este amor.

Dom Isidro

Retrato

| quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Retrato
A noite chegou de manso
Como quem vem pra ficar
Trouxe um véu cobrindo a tarde
E um manto de estrelas pro luar
Trouxe um riso na lembrança
E uma causa pra sonhar.

Na solidão do meu mate
Sussurrei esta canção
Com teu nome entre as ondas
Faz-se mar meu chimarrão
Sem o mel do teu sorriso
Pra adoçar meu coração.

Vi os grilos em melodia
Em parceria com a rua
Vi que a noite fez de estrelas
Seu livro de partitura
Numa orquestra da natureza
Magistrada pela lua.

Quando o brilho dos meus olhos
Fez menção ao horizonte
Um barrete de esperanças
Pra saudade fez reponte
O pôr do sol num sorriso
Retratou o teu semblante.

Noutro mate, noutro verso
Foi-se embora o meu cansaço
Pois tua voz soprou meu nome
No canto suave de um pássaro
Que se aconchegou no ninho
Como te aqueço em meus braços.

E a cuia quedou-se quieta
Bem ao lado da cambona
O vento levou meu beijo
E silenciou a cordeona
Para levar meu olhar
Pra te entregar, minha dona.

A noite chegou de manso
Trouxe um véu cobrindo a tarde
Sussurrei esta canção
Na solidão do meu mate
Retratou-me teu semblante
Num pôr de sol que ainda arde.

Dom Isidro

Chico de Assis - Dom Isidro

| terça-feira, 4 de outubro de 2011
Tem algum tempo que escrevi estes versos que ganharam vida e melodia pelas mãos do Jean Alano, hoje, no dia de São Francisco de Assis, presto minha homenagem ao Pai dos Pobres com a composição que fiz em seu nome:
Chico de Assis

Amar a Deus sem medida
Doar-se ao pobre e infeliz
Basta pra qualquer gaúcho
Que anseia ser feliz
Assim pregava Francisco
Naquela estância de Assis

Deixando as pilchas de rico
Pregar como o Cristo se vai
Deixa o rancho e vida de nobre
A velha mãe e o nome do pai
Pra ser o Chico dos pobres
Francisco de Deus, nada mais

Acharam que era loucura
Coisa de piá ou da idade
Pregar a charla divina
Criar uma fraternidade
E ainda tomar por irmãos
Aos leprosos da cidade

Teve os pobres por família
Pois era sua missão
Falar do evangelho e da paz
Do amor ao Divino Patrão
Foi o que ouviu certo dia
Na Capela de São Damião

Santa Clara seguiu o xirú
E com ela outras prendas também
Contra a vontade de todos
Deram juntos seu sim, seu amém
Pregando por todo povoado
Que Deus é amor, paz e bem

Pelas ruas da cidade
Levou amor com seu canto
E a prenda Maria do céu
Estendeu sobre Chico o seu Manto
Pois sabia que estava com ele
O vaqueano Espírito Santo

Ver Cristo nas criaturas
E em todo o peão sofredor
Doar-se a cada vivente
Com o mais pleno e doce amor
Deram ao jovem Francisco
A Glória das Chagas do Senhor

Assim era o pai dos pobres
Casto, obediente e feliz
Cumpriu a missão recebida
Fez aquilo que Deus quis
E nós hoje te pedimos
Rogai por nós Francisco de Assis

Peço a prenda Maria
Que nos cubra com seu manto
A Francisco e também Clara
Que me ensinem a ser santo
Sempre em nome do Pai
Do Filho e do Espírito Santo

Dom Isidro
 

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