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Entre o Pensar e o Dizer - Filosofia poética...

| quinta-feira, 26 de março de 2015

Entre o Pensar e o Dizer

Versando com a linguagem
O vivo instrumento do ser
Brotam questões hermenêuticas
Que poucos se atém a responder
Pois elas se velam nas falhas da fala
Entre o pensar e o dizer

De menos a mais infinito
Estende-se supremo o pensar
Buscando no dizer sem limites
A essência de em si significar
Prende-se ao “estar” do passado
E no aquém da origem voltar

Saber, sentido, discurso
Eterna busca do principio
Que o ser remete ao além
Consagrando este sacrifício
Romper ou chegar no limite
Do universo que traz o silêncio

Poeta, filósofo e sábio
Discursam no seu pensar
Vão à meta do dizer
Se pretendem anunciar
Usando em seu beneficio
O ato do enunciar

Matéria, coisa pensante
Que ao dito e não dito recorrem
Bebendo do néctar doce
Que dá a relação da linguagem
Boa amiga e nefasta presença
Liberdade e limite do homem

Oh forasteiro e amigo
Soberbo e ambíguo dizer
Pelo pensar refletido
Em si mesmo e no seu vir-a-ser
Que a coisa pensante anuncia

E tensiona no próprio viver...

Isidro

Quem sabe...

|

Quem sabe um dia...
Num outro tempo...
Outro poeta,
Outro verso,
Outro gênero,
Outro começo...

Quem sabe um dia...
Num mundo novo
Um novo artista
Um novo assombro
Um novo filósofo
Um livro novo

Quem sabe então...
Um eu mais novo,
Outro sábio,
Um novo povo
No outro, então...

O novo, de novo.

Isidro

Agostinho Tropeiro

| terça-feira, 28 de agosto de 2012


Agostinho tropeiro
O sol se levantou
E a lua adormecia
Agostinho se acordou
Logo ao raiar do dia.

Ainda era cedo pra lida
E o taura ia chimarrear
Mas ao chiar da chaleira
Pegou a pensar na vida
Pegou a se lamentar.

Pensou logo no compadre
E no filho que se foram
Resolveu campear o padre
Rezar pelos que o deixaram.

Depois do zaino encilhado
Nem cevou seu chimarrão
Se foi a trote pra o povoado
Chegou no meio do sermão
E o bispo seguiu falando
Do evangelho, dos irmãos
E cada dito tocava
O peito daquele peão.

Dom Ambrósio falou bonito
Dum tal Divino Patrão
Que mandou o filho solito
Pra morrer pelos irmãos
Agostinho ouviu que o tropeiro
Esse tal de Jesus Cristo
Fez um serviço bonito
E começou a conversão.

E Agostinho bolicheiro
Boêmio e cheio de ardor
Deixou de ser bochincheiro
Deixou de ser peleador.

Só não deixou da labuta
Nem parou de chimarrear
Mas o vivente mudou de luta
Começou a evangelizar.

O Cristo quando apaixona
Não adianta corcovear
Bem mais que som de sanfona
Leva a gente sem pensar.

A mãe, Mônica, se alegrou
Com a boa decisão
De alegria até chorou
Por ver o filho cristão.

Mas esta felicidade
Também requer sacrifício
É preciso castidade
Prontidão para o serviço.

E pra ele foi difícil
Pois não era aquerenciado
A deixar de lado o vicio
Se tornar um consagrado.

Mas um índio inteligente
Não dispara na aflição
Era difícil ser crente
Mas era melhor ser cristão.

E o moço bolicheiro
Não se medrou por quebranto
Doutor e padre primeiro
Depois morto, grande santo
E hoje é quisto no mundo
Em todos os quatro cantos
Por que mergulhou bem no fundo
No poço do Espírito Santo.

Aos Pais...

| sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Sentado num banco
Atento pra o vento
Olhos ao longe
Mirando o firmamento,
Buscando o ontem distante
Na roda larga do tempo.

As mãos que foram sustento
E escudo pra todo o mal
Ensinaram a lida campeira
E a lutar por um ideal
Quantas vezes farquejaram
Meus cavalinhos de pau.

A funda de goiabeira
A cacimba bem tapada
A taia de água bem fresca
A traíra pra a fritada
Paciente o pai ensinava
E a sabedoria encantava.

Os conselhos que ainda lembro
Aonde vou comigo eu trago
Ser honesto, companheiro,
Ser forte, valente e bravo
Onde andar levar comigo
O amor por este pago.

Do taura já resta pouco
Do pala restam farrapos
Do sábio restam ensinos
Da força restam os braços
Do pai resta a lembrança
E a vontade de um abraço.

Meu pai que como tantos
Já partiu pra eternidade
Deixou o nome na história
E uma carga de saudade
Deixou marcas na memória
E a coragem por verdade.

Outros pais que ainda andam
Neste mundo que deus fez
Merecem toda a ternura
Que estes versos vem dizer
A palavra abre o verbo
Pra saudar um bem querer.

Bem queremos neste dia
Aos pais de todo o rincão
Que plantaram nesta terra
O amor por este chão
Semearam esperanças
Aos filhos de coração.

Recuerdo do chimarrão
Cevado na madrugada
Pra esperar o amanhecer
Cada cuia era uma aguada
Repleta de vida e sonho
Pra o futuro da filharada.

A gaita seguia quieta
Quase sempre a esperar
As mãos que depois das lidas
Tivessem tempo de tocar
Pra alegria do piazedo
O pai tinha que cantar.

Tem filhos que vivem longe
Desta terra, deste chão
Mas onde estão tem vontade
De voltar para o rincão
Abraçar o velho pai
Que sempre é raiz e razão.

Meus versos tem rumo certo,
Vem rogar ao pai dos pais
O patrão lá das alturas
Que abençoe e traga a paz
Dê a todas as famílias
Um Feliz Dia dos Pais!

Dom Isidro

Homenagem aos Avós - Meus Velhos

| quinta-feira, 26 de julho de 2012

Eu as vezes volto ao rancho 
Onde tive criação 
Pra arrematar a saudade 
Que trago no coração 
E encontro dois velhinhos 
Ao pé dum velho fogão. 

É um gosto chimarrear 
Ouvindo suas memórias 
São belos causos antigos 
Que trazem da trajetória 
Dos mestres que hoje velhos 
Juntos traçaram a história. 

São as melhores relíquias 
De um tempo que já partiu 
São conselho e verdade 
Que muito mal já venceu 
São meus amados avós 
A quem rendo este ardil. 

Tive boa criação 
Sob este terno olhar 
O avô comigo no colo 
A avó a me acariciar 
A benção e o beijo doce 
Me ensinando a rezar. 

Da gamela enfarinhada 
Tantas vezes vi surgir 
Roscas, pães e bolachas 
Que a avó fazia a sorrir 
Enquanto o avô descansava 
Para lida e o porvir. 

Foram prendas mui lindas 
Fortes e belos peões 
A quem deram vida e educaram 
Cultivando as tradições 
Traçando bênçãos na fronte 
E recitando orações. 

Os rostos envelhecidos 
Que hoje olham pra mim 
Lembram dos de outrora 
Dos avós lá de Belém 
Da sábia e doce Sant’Ana 
E do justo São Joaquim. 

São hoje como um retrato 
Impresso no coração 
As rugas cruas e rudes 
Que via nas suas mãos 
Ensinaram-me a ser homem 
Ser justo, bom e cristão. 

As lutas que suportaram 
Nesta vida de perigos 
Deram os braços fortes 
Que foram o meu abrigo 
E sendo apenas dois velhos 
São meus melhores amigos. 

Seus olhares que me cobrem 
Com um sorriso contente 
Ensinaram-me os caminhos 
Pra ser honesto e valente 
São meus exemplos, meus mestres 
Meus irmãos, meus confidentes. 

Pai Nosso que estais no céu 
Ouça-me e compreenda 
Permita que vivam sempre 
E na luta nunca se rendam 
Para as tristezas da vida 
Este peão e esta prenda. 

E assim como criaram 
Tantos netos, tantos filhos 
Que eu sempre carregue comigo 
Como o sangue que partilho 
Da avó o doce sorriso 
E do avô nos olhos o brilho. 

Saibam todos que este verso 
O tempo fará em pó 
Quem escreve é um gaúcho 
Com coração e garganta em nó 
Que rende esta homenagem 
Aos amados vovô e vovó.

Quero-quero

| sexta-feira, 18 de maio de 2012
Quero-quero desconfiado vai tecendo um bem querer...
Quer o amparo e quer o afago desfiando um bem-me-quer...
Dom Isidro


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Aforismos da Alma - 01

| domingo, 1 de abril de 2012

Vi tardes caírem calmas nas vistas das almas que andam sós. Vi dias trançando vias no viço vivo dos girassóis. Vi noites andarem mansas mirando as danças do luar, vi vaga-lumes a procurar luzes perdidas em um olhar. Vi mundos buscando o fundo do poço raso do bem querer, vi tempos trincando ventos, contando tentos para viver.
Andei andando, me procurando na sanga clara dum arrebol, promessa rara, pressa desnecessária de um caracol. Contei com a noite, senti o açoite do ramo verde que a alma lavra na dor do corte, fere de morte o fio da palavra. Lágrimas rotas secas nas gotas de uma lembrança, jaz a esperança do reencontro do verso pronto para entregar a quem não vêm e ainda insiste em esperar, na ânsia incontida de nascer partindo, de andar sentindo sem nunca chegar...

Dom Isidro

Tenteei uns versos... De um tal Leonardo José...

| quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Tenteei uns versos de despedia pro meu velho, já faz tempo... Mas hoje, ao lembrar de um sonho que tive com ele, resolvi postar estes versos toscos, que apontam uma saudade, muitas lembranças e uma vontade...

De um tal Leonardo José
(Em memória de meu pai)
A dor espinha no peito
E o índio não vê a ferida
Só sabe que tem que dizer
O adeus da despedida
Quando a morte caborteira,
Toca o hino da partida.

Hoje me peala esta dor
Por um taura que se vai
Um bom e velho gaiteiro
Que hoje não toca mais
Rendo esta charla campeira
Ao meu bom e querido pai.

Os amigos vão embora
Tristes, estendem a mão
Depois de deixar um taura
A sete palmos do chão
E a gente então se vê só
Num rancho de solidão.

Enquanto cevo este mate
Acho que assim a vida é
Vou hoje matear solito
E renovar minha fé
Rezando pra aquele santo
Que como meu pai foi José.

Mas não foi só este nome
Que meu pai levou do santo
Também foi trabalhador
Nunca medrou de quebranto
Também amava a Deus Pai
E o vaqueano Espírito Santo.

Sei que parte com ele
Aquela voz machucada
Que tantas vezes cantou
Nos bailes de madrugada
Agora canta pra Deus
Lá na eterna morada.

A lágrima molha o papel
E o pito vai se apagando
E aquela dor caborteira
Para os versos vai passando
E, como meu pai, limpo o rosto
Pra não me verem chorando.

Se é pra dizer adeus
Que seja numa canção
Ou numa prece campeira
Um prosa de oração
Que dou como despedida
Ao meu pai do coração.

Chimarreando com Deus
Fiz esta pajada de fé
Pois sou filho de um cristão
E soou um índio que crê
Entrego ao Patrão Celeste
Um tal Leonardo José.

Dom Isidro

Entardecer... As Palavras do Natal...

| sábado, 24 de dezembro de 2011
Minha avó sempre dizia as Palavras do Natal, um poema antigo que, embora analfabeta, havia decorado na infância e usava todo o ano para comemorar o Natal de Jesus e o seu próprio Natal, por fazer aniversário no dia 24 e dezembro, este é o nosso primeiro ano sem ela, o primeiro ano sem aquele olhar na cabeceira da mesa, o primeiro ano sem as Palavras do Natal... A alguns anos escrevi as minhas próprias Palavras do Natal, com este poema "Entardecer" que dedico a todos os leitores e amigos junto ao desejo de um Santo, Abençoado e Feliz Natal!
Vítor Isidro

Entardecer

Num entardecer de verão
Enquanto espreitava o calor
Lembrei d’outra tarde serena
Descrita no chasque do amor
Quando na estância em Belém
Veio ao mundo o Salvador

Ao antes então retornei
Palmeando meu chimarrão
Pra um ranchinho simples
Distante noutro rincão
Quando a Prenda celeste
Deu o sim na Anunciação

Pensei no Anjo gaudério
O missioneiro São Gabriel
Ao surpreender a Virgem
Lidando em seu carretel
A alegria de ser mensageiro
Dum chasque vindo do céu

A saudação foi gloriosa
Porque glorioso era o dia
Salve! Prenda celeste!
Ave! Prenda Maria!
Serás a mãe do Senhor
Darás a luz o Messias

Maria não se medrou
Pois tinha que ser assim
Era uma serva de Deus
Que lhe presenteou este fim
Foi pura, casta e piedosa
Deu por vontade o seu sim

Servir ao Divino Patrão
Isso ela sempre o faria
Foi filha e mãe do Senhor
O Deus e senhor de Maria
Cuidou de Izabel e de João
Na estância de Zacarias

Sofreu o xirú prometido
O taura chamado José
Pensou em fugir pra longe
Dos bretes de Nazaré
Mas ouviu de São Gabriel
A charla sagrada da fé

Ao encontro de Maria
O carpinteiro se vai
Amor de muita grandeza
Dos que hoje não se vê mais
O guasca se fez protetor
Do Filho do Eterno Pai

Partiram confiando na sorte
Rumo a estância de Belém
Não receberam abrigo
Nem auxilio de ninguém
Só o gado e o pastoreio
Foi testemunha também

Era vontade de Deus
A idéia do Soberano
É este o grande milagre
Que rezamos todo o ano
O Rei dos reis nasceu pobre
E foi envolto com panos

Nasceu num brete gaudério
E não entre patrões e senhores
Só a criação e os pais
Deram os primeiros amores
E um anjo cheio de luz
Foi convocar os pastores

Depois sim, vieram reis
Seguindo um facho de luz
Que no coração do pago
Até hoje ainda reluz
Quando se vê no Presépio
Maria e José com Jesus

Queria ser um pastor
Naquela noite sem igual
Mas nasci em outro tempo
Peão do Rio Grande bagual
Só posso pedir ao Piázinho
Um Feliz e Santo Natal

Retrato

| quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Retrato
A noite chegou de manso
Como quem vem pra ficar
Trouxe um véu cobrindo a tarde
E um manto de estrelas pro luar
Trouxe um riso na lembrança
E uma causa pra sonhar.

Na solidão do meu mate
Sussurrei esta canção
Com teu nome entre as ondas
Faz-se mar meu chimarrão
Sem o mel do teu sorriso
Pra adoçar meu coração.

Vi os grilos em melodia
Em parceria com a rua
Vi que a noite fez de estrelas
Seu livro de partitura
Numa orquestra da natureza
Magistrada pela lua.

Quando o brilho dos meus olhos
Fez menção ao horizonte
Um barrete de esperanças
Pra saudade fez reponte
O pôr do sol num sorriso
Retratou o teu semblante.

Noutro mate, noutro verso
Foi-se embora o meu cansaço
Pois tua voz soprou meu nome
No canto suave de um pássaro
Que se aconchegou no ninho
Como te aqueço em meus braços.

E a cuia quedou-se quieta
Bem ao lado da cambona
O vento levou meu beijo
E silenciou a cordeona
Para levar meu olhar
Pra te entregar, minha dona.

A noite chegou de manso
Trouxe um véu cobrindo a tarde
Sussurrei esta canção
Na solidão do meu mate
Retratou-me teu semblante
Num pôr de sol que ainda arde.

Dom Isidro

Na mirada do amargo...

| quinta-feira, 1 de setembro de 2011
A grama tordilha, o pasto, a macega
O taura cantando proezas da guerra
O velho que conta com as bençãos da terra.

São sinas gaúchas de campo e de céu
Das cismas que esconde por sob o chapéu
Sonhando com a china e seus lábio de mel.

É a vida do pampa que corre em porfia
O cusco orelhano correndo à lá cria
E um galo que canta acenando pro dia.

O doce do margo reponta a esperança
De erguer um ranchinho pra prenda e as crianças
Cuidando da lida e cantando lembranças.

De um tempo passado em que também foi piá
entre as pitangueiras, a sanga, o pasto e o caraguatá
Juntando quimeras e vendo a vida passar.

Confio a carreira da vida e dos meus
Pra lida de campo que a vida me deu
Buscando a mirada dos olhos de Deus.

Dom Isidro

Versos Toscos - Fragmentos

| quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Nesse verde dos caminhos que se estendem no meu chão, me pego a imaginar teu jeito doce, me passando um mate e segurando leve a minha mão...

Como é inquieta esta sina, na cisma do bem querer, ter olhos para chorar, com sede do teu olhar e muita pressa pra te ver...

Transformar sonho em realidade, é a utopia de todo poeta, desvelar segredos, revelar desejos, em sua vontade tão clara e secreta...

Nesse faz de conta, vou contando estrelas sob esse luar. Cantando segredos, contando os segundos pra te ver chegar...

Nada que o coração já não saiba ou que precise entender, mas, talvez, tudo o que o próprio coração quer dizer...

Dom Isidro

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Sabor das horas...

| quarta-feira, 3 de agosto de 2011
São amargas as manhãs sem teu perfume e tristes as noites sem teu amor...
São largas as horas sem teu sorriso e frias as tardes sem teu calor...

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Homenagem aos avós - Meus Velhos

| sábado, 30 de julho de 2011

Eu as vezes volto ao rancho
Onde tive criação
Pra arrematar a saudade
Que trago no coração
E encontro dois velhinhos
Ao pé dum velho fogão

É um gosto chimarrear
Ouvindo suas memórias
São belos causos antigos
Que trazem da trajetória
Dos mestres que hoje velhos
Juntos traçaram a história

São as melhores relíquias
De um tempo que já partiu
São conselho e verdade
Que muito mal já venceu
São meus amados avós
A quem rendo este ardil

Tive boa criação
Sob este terno olhar
O avô comigo no colo
A avó a me acariciar
A benção e o beijo doce
Me ensinando a rezar

Da gamela enfarinhada
Tantas vezes vi surgir
Roscas, pães e bolachas
Que a avó fazia a sorrir
Enquanto o avô descansava
Para lida e o porvir

Foram prendas mui lindas
Fortes e belos peões
A quem deram vida e educaram
Cultivando as tradições
Traçando bênçãos na fronte
E recitando orações

Os rostos envelhecidos
Que hoje olham pra mim
Lembram dos de outrora
Dos avós lá de Belém
Da sábia e doce Sant’Ana
E do justo São Joaquim

São hoje como um retrato
Impresso no coração
As rugas cruas e rudes
Que via nas suas mãos
Ensinaram-me a ser homem
Ser justo, bom e cristão

As lutas que suportaram
Nesta vida de perigos
Deram os braços fortes
Que foram o meu abrigo
E sendo apenas dois velhos
São meus melhores amigos

Seus olhares que me cobrem
Com um sorriso contente
Ensinaram-me os caminhos
Pra ser honesto e valente
São meus exemplos, meus mestres
Meus irmãos, meus confidentes

Pai Nosso que estais no céu
Ouça-me e compreenda
Permita que vivam sempre
E na luta nunca se rendam
Para as tristezas da vida
Este peão e esta prenda

E assim como criaram
Tantos netos, tantos filhos
Que eu sempre carregue comigo
Como o sangue que partilho
Da avó o doce sorriso
E do avô nos olhos o brilho

Saibam todos que este verso
O tempo fará em pó
Quem escreve é um gaúcho
Com coração e garganta em nó
Que rende esta homenagem
Aos amados vovô e vovó

Vítor Isidro

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